domingo, 13 de dezembro de 2009

Estadão - Índios escritores resgatam sua história

Tradição é compartilhada com alunos nas escolas e registrada em livros

José Maria Mayrink

Os índios escritores estão recuperando a história dos povos indígenas que os não índios ignoram. Seus livros, numa coleção de narrativas para crianças e adultos que relembram as tradições das 250 nações hoje sobreviventes no Brasil, variam no estilo, mas perseguem todos o mesmo objetivo - restaurar na ficção de lendas, novelas e romances a sabedoria dos ancestrais. Pesquisas antropológicas e o registro de uma memória que vem sendo transmitida, de geração em geração, pela boca dos pajés, permitem resgatar a riqueza cultural de gente antes chamada de ignorante, selvagem, feia e preguiçosa.

Daniel Munduruku, ou Derpó, que em sua língua nativa significa Peixe Maluco, é um dos pioneiros desse esforço editorial. Ao lado de guerreiros como Marcos Terena, Kaká Werá, Aílton Krenak, Darlene Taukane, Eliane Potiguara e dezenas de outros autores que aparecem num catálogo literário organizado por entidades de defesa dos bens e direitos sociais dos índios, Daniel ajuda a espalhar a produção intelectual de seus parentes, pelo Brasil e no exterior.

UMA SAUDAÇÃO

A tradição e a cultura indígena também são compartilhadas com as crianças nas escolas. "Xibat?", pergunta o índio escritor-professor a uma turma de alunos da Escola Lourenço Castanho, no bairro do Ibirapuera, em São Paulo, na manhã de uma sexta-feira de novembro. Os meninos e meninas, de 8 a 10 anos, que no início do encontro tinham ouvido de Daniel uma saudação em língua indígena, logo traduzida para o português, não entenderam nada. Todos sorriam, esperando a tradução de mais essa palavra.

"Tudo bem? Tudo legal? Tudo joia? Tudo porreta?", traduziu o índio, despejando uma enxurrada de gírias para quebrar o gelo. Depois contou que, na aldeia, ninguém se cumprimenta com beijos e abraços, mas só com uma saudação simples como xibat, olhando nos olhos, porque, como dizem os ancestrais, "o olho é a única parte do corpo que não mente". Explicou que Munduruku quer dizer Formiga Guerreira ou Gigante, um nome que, com um significado desse, só pode dar orgulho a seu povo. A criançada prestou a maior atenção.

"Meu povo, que vive na floresta há séculos, entrou em contato com os não índios há uns 300 anos. Aprendeu a usar roupa quando lhe disseram que era pecado andar pelado, balançando os balangandãs. Aprendeu a comer alimentos, como o macarrão, que não faziam parte de sua tradição. Os índios comiam mandioca, anta, farinha, peixe. Os índios, que falavam sua língua tradicional, tiveram de aprender o português. Os povos indígenas, que falam 180 línguas nas diversas regiões do País, agora são bilíngues."

Não havia como não prestar atenção. O horário reservado para a palestra estourou, porque Daniel cativou os alunos. Fez provocações engraçadas, riu, gritou alto de assustar até os adultos, cantou, ensaiou passos de dança, pintou a cara com tinta de jenipapo e de urucum, pôs um cocar de chefe na cabeça e um colar de festa no pescoço. Assumiu a identidade da aldeia ao relembrar a cultura dos ancestrais, mas deixou claro que fazia concessões à modernidade. Para divulgar a história dos índios e defender seus direitos, tem um blog na internet e se comunica por e-mail e por telefone celular.

"O povo indígena é um povo humano, que tem raiva, alegria, amor e ciúme", disse Daniel, citando sentimentos que acompanham seus personagens. Ao descrever as aventuras de seus parentes - com namoros, casamentos, caçadas, guerras e alianças de paz - ele utiliza palavras atuais, como garoto, rapaz e moça. Tudo com poesia e figuras simbólicas, mas sem aquela linguagem tipo "virgem dos lábios de mel" com que José de Alencar se referia a Iracema.

Derpó Munduruku, que hoje se orgulha desse nome, mesmo atendendo pelo registro civil que o rebatizou como Daniel, confessa que já sentiu vergonha de suas origens, quando era discriminado por causa da imagem que o índio tinha. "Além de considerar que o índio era preguiçoso e feio, diziam que ele atrapalha o progresso, pois tem muita terra e não sabe o que fazer com ela."

Daniel queria ser bombeiro ou astronauta, não queria ser visto como um selvagem. "Agora, tenho consciência de minha identidade e gosto dela: sou um brasileiro-índio." E, quando ele lembrou que existem brasileiros brancos, negros, japoneses, italianos e cidadãos de muitas outras ascendências que nem por isso são menos brasileiros, todos entenderam.

"Xibat?", perguntou o índio. "Xibat", respondeu a criançada em coro.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Tim Burton estica curta e o que vale é a tecnologia

Fonte: Estadão, 12 de outubro de 2009.



9 - A Salvação virou longa metragem por sugestão do famoso diretor de filmes sombrios e serve como exemplo de bom uso das técnicas de ponta na animação

LUIZ CARLOS MERTEN

Há apenas quatro anos, Shane Acker recebeu o prêmio de melhor curta da Academia de Estudantes de Cinema por um filme chamado 9. Até então, a experiência profissional de Acker se resumia basicamente ao trabalho como animador de pós-produção em O Senhor dos Aneis - O Retorno do Rei. Tim Burton viu o curta do jovem diretor e, seduzido por seu visual e tema - ambos definidos como "esquisitos" -, propôs a Acker que o expandisse num longa, que ele produziria. O resultado é 9 - A Salvação, que estreia hoje.



Veja trailer de 9 - A Salvação




Como em O Estranho Mundo de Jack, o espectador pode ser induzido a achar que se trata de uma animação de Tim Burton. O nome dele aparece sempre com mais relevo do que os de seus diretores - Henry Selick em Jack, Acker aqui. Mas o diretor de A Salvação garante que Burton não interferiu no processo criativo do longa - e, quando interferia, era para exortar Acker a retomar o fio de seu curta, no caso de ele estar indeciso quanto aos rumos de Salvação.

É uma animação radicalmente diferente das de John Lasseter, na Pixar - e Up, Altas Aventuras ainda está em cartaz, com expressivo êxito de público e crítica, caso você queira conferir. É curioso que se fale em Lasseter, a propósito de Up, porque ele também é produtor e supervisor, mas o processo criativo foi inteiramente entregue ao diretor Pete Docter, tão autônomo quanto Shane Acker. 9 - A Salvação está mais próximo do espírito de Wall-E: um Wall-E sombrio, dark, gótico, com Burton gosta.

Wall-E conta a história de um robozinho que vai ficando obsoleto num mundo pós-apocalíptico em que a tecnologia avança rapidamente. 9, o numeral que faz as vezes de nome, é mais marionete, um boneco não totalmente acabado - como Edward Mãos de Tesoura - que enfrenta os perigos de um mundo onde os últimos de sua espécie estão sendo caçados por uma besta também pós-apocalíptica. Há essa máquina, estranhíssima, que suga as almas dos que são como 9. O pequenino herói, face ao gigantismo da máquina, lembra Tom Cruise diante dos ETs de Guerra dos Mundos, de Steven Spielberg - e até os terráqueos, no interior dos alienígenas, devem ter sido inspirações para Shane Acker.

O longa provocou sensação nos EUA, onde a crítica deve ter problemas para perceber que Ratatouille e Up são grandes, imensos filmes. O inusitado do visual de 9 - A Salvação criam a fantasia de que o filme de Acker é mais "ousado" ou "criativo". Na verdade, toda a pesquisa de "conteúdo" de 9 parece de segunda mão. Seu forte é a tecnologia, mas ele poderá causar estranhamento aos que se encantam com o universo multicolorido da Pixar. Acker demorou quatro anos e meio para fazer, artesanalmente, seu curta. Com os recursos franqueados por Tim Burton, esse prazo se reduziu à metade para outro filme de duração quatro vezes maior.

Os bonecos de A Salvação foram modelados em 3-D, ganharam texturas no photoshop, as composições foram definidas nos efeitos pós e um avançado programa - Première - permitiu a edição, com tecnologia computadorizada de ponta. Tudo isso é certamente complexo e 9 aponta novos rumos para a animação. É o que torna o programa particularmente atrativo - para adultos, mais até do que para crianças. Você pode comparar com outras animações, de outras escolas, já em exibição nos cinemas. Up, da Pixar, e também Tá Chovendo Hambúrguer, da Sony, ambas em 3D. Nesta sexta também entra O Golfinho, a mais caracteristicamente "infantil" de todas essas animações. Essa diversidade é que faz a riqueza dessa mídia tão particular que muitos crítiocos e profissionais chegam a definir a animação como "oitava arte".

Serviço
9 - A Salvação
(9, EUA/ 2009, 79 min.) - Animação. Direção de Shane Acker. 10 anos. Cotação: Regular

O samba antes e depois de Rildo

Renomado produtor de samba

Fonte: Estadão, 12 de outubro de 2009.

O veterano produtor, que impulsionou as carreiras de sambistas importantes, vem aí com novo álbum



Lucas Nobile


A calmaria mora no não dito. O gaitista, produtor, arranjador e maestro Rildo Hora precisou de tempo para entender isso e fazer um "pacto com a generosidade", como ele mesmo define. Do alto de seus 1m90, o intempestivo e magro Rildo, que ganhou da amiga Beth Carvalho o apelido de "Comprido Hora", costumava bater de frente com artistas e gravadoras para impor suas ideias. E os arroubos de imperatividade não se restringiam apenas à profissão.

Nascido em Caruaru de uma família predominantemente branca e reacionária, recém-saído da adolescência, Rildo deixava crescer a vasta cabeleira "pixaim", que havia herdado do pai, só para provocar a ira das tias e avós. "Em 1968 eu me considerava um comunista. Hoje sou um órfão do Kremlim. Assim como o presidente Lula, aprendi a conviver com os contrários", diz Rildo, lulista convicto, que justifica seu principal hobby, a política, assistindo à TV Senado nas horas vagas.

Hoje, aos 70 anos - e mais de 50 de carreira -, Rildo se tornou uma espécie de Rei Midas do Samba e coleciona em sua cobertura no Corte do Cantagalo, no Rio de Janeiro, cerca de 150 discos de ouro e platina de diversos artistas com quem trabalhou, e 4 Grammys Latinos conquistados ao lado de Zeca Pagodinho (2001/02/ 03/ 06).

Consagrado como produtor e arranjador, ele ainda respira novos projetos que caminham na contramão dos enlatados do mercado. Sem abandonar os grandes nomes com quem trabalha no momento, como Zeca e Fundo de Quintal, Rildo se atualiza, dedicando seu tempo à produção de jovens artistas da cena independente. "Acredito na força de baixo para cima na cultura e estou muito sensibilizado em trabalhar com sangue novo. O segmento independente é muito interessante, lá não se fala a palavra "vender". É ele que vai dar a futura cara da música brasileira, com liberdade de expressão", comenta o produtor.

Mesmo com a estrada de uma longa carreira pavimentada pela produção e por arranjos de gravações antológicas, Rildo ainda faz questão de refrescar a memória do público, revelando mais duas de suas facetas: a de gaitista e a de compositor. A primeira ainda resiste com participações em discos e frequentes shows-solo que ele faz pelo Brasil. Foi com a gaita que Rildo conquistou os contemporâneos de bossa nova com registros singulares, como Batida Diferente, de Durval Ferreira, no seu disco de estreia, Samba Made in Brazil - Rildo Hora e o Clube dos 7, e impressionou os estrangeiros, como os jornais que o classificaram de "virtuoso da gaita" e o coreógrafo Mikhail Baryshnikov, em viagem à antiga União Soviética, em 1965.

E a segunda faceta está mais viva do que nunca, já que Rildo acaba de entrar em estúdio para gravar um disco com sua filha, a cantora Patrícia Hora, com lançamento previsto para o início de 2010. No repertório, composições inéditas antigas e recentes de Rildo com parceiros como Nelson Sargento, Luiz Carlos da Vila, Humberto Teixeira, Nei Lopes e Zélia Duncan, e a regravação de Anda, Sai Dessa Cama, parceria com Martinho da Vila.

Em relação à carreira de arranjador e produtor, Rildo não poderia estar mais contente, já que depois de um hiato de 25 anos ele voltará a trabalhar com Beth Carvalho. O disco, que começa a ser gravado apenas no próximo ano, terá no repertório sambas inéditos resgatados no imenso baú da "Madrinha do Samba".

Ana Cañas lança álbum "Hein"

Fonte: TV Estadão de 12 de outubro de 2009.

Pegada mais rock. Produção de Liminha.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Léo Cavalcanti vence festival na Semana da Canção


AE - Agencia Estado, terça-feira, 29 de setembro de 2009, 11:41


SÃO PAULO - O jovem paulistano Léo Cavalcanti foi o vencedor do festival dentro da Semana da Canção Brasileira, que terminou no início da madrugada de ontem, em São Luiz do Paraitinga. Dos 12 selecionados, 2 eram mulheres e o fato de elas terem ficado com o segundo (a pernambucana Karina Buhr) e o terceiro (a carioca Aricia Mess) lugares é significativo. "Hoje há um grande número de cantoras que compõem, mas as músicas não são boas", disse Chico César, que presidiu o júri formado ainda pela cantora Virginia Rosa e os compositores Galvão, de São Luiz do Paraitinga, e Dante Ozzetti.



Elas, como Léo e os outros três concorrentes que passaram para a etapa final - o mineiro Kristoff Silva, o carioca Luiz Capucho e o paulistano Dani Black - "têm um compromisso com sua própria música". "Isso para mim é canção hoje, não mais só a bela letra, a bela melodia", diz César, tomando como referência ícones como Luiz Gonzaga, Prince, Elomar. Em suma, o critério que norteou os jurados foi selecionar quem tem uma "assinatura própria". Se for para ser igual a tudo o que já está aí, como disse César, não faria sentido ter um festival dentro da Semana da Canção.



Também para o público, o potencial de Léo ficou evidente desde a sua primeira apresentação, confirmada na segunda, com canções - "Ouvidos ao Mistério" e "Acaso" - e interpretações arrebatadoras.



Além do festival, o Coretinho, mais uma vez, foi uma espécie de plataforma de lançamentos de artistas contemporâneos. Além do show inédito de Marcelo Pretto, que cativou adultos e crianças com seus malabarismos vocais, teve Sérgio Molina e Miriam Maria, interpretando inéditas de Itamar Assumpção. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

domingo, 27 de setembro de 2009

A maior floresta do mundo


Reportagem especial do Estadão de 25 de novembro de 2007.


Beleza e destruição cobrem metade do Brasil

Herton Escobar


São Gabriel da Cachoeira, cidade onde cerca de 90% da população é descendente de índios. Foto: Jonne Roriz/AE


MANAUS - A Amazônia tem escala e dimensão singulares e superlativas. É a maior floresta tropical do mundo e maior concentração da biodiversidade do planeta. Sua cobertura verde é uma embalagem viva sob a qual se esconde um universo de animais, plantas, micróbios, genes, climas, águas, índios, beleza e destruição. Cobre metade do território nacional. Não seria exagero dizer que o Brasil é o país da Amazônia, muito mais do que a Amazônia é a floresta do Brasil.

Se somadas as áreas de quase todos os países da Europa (excluindo os da antiga União Soviética), eles caberiam com folga dentro da superfície da Amazônia brasileira. O bioma inteiro tem 6,6 milhões de quilômetros quadrados, espalhados por nove países sul-americanos. O Brasil é dono de quase 65% disso, com mais de 4 milhões de km² de floresta. Só o Estado do Amazonas, com 1,6 milhão de km², tem quase cinco vezes a área da Alemanha ou três vezes o território da França, e é maior do que qualquer um dos outros países amazônicos – Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana e Suriname, fora a Guiana Francesa, que é uma possessão.

Referências à Amazônia brasileira aparecem de duas maneiras distintas. A primeira é o bioma Amazônia, uma definição ecológica que considera apenas as áreas de formação florestal e seus ecossistemas associados; tem 4,2 milhões de km², ou 50% do território nacional. A outra, chamada Amazônia Legal, é uma região política, que abrange os sete Estados do Norte (Amazonas, Pará, Roraima, Amapá, Acre, Rondônia e Tocantins), mais Mato Grosso e metade do Maranhão. Tem pouco mais de 5 milhões de km² e foi definida originalmente como área de jurisdição da antiga Sudam, a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia, extinta em 2001 e recriada neste ano. Além de áreas de floresta, inclui cerca de 730 mil km² de cerrado e outras formações naturais não florestais. Os 100 mil km² que sobram são as superfícies ocupadas pelos rios – um universo aquático quase do tamanho de Pernambuco. Normalmente, faz-se referência à Amazônia Legal quando se trata de dados econômicos; as estatísticas sobre desmatamento – ou desflorestamento – dizem respeito apenas às áreas de floresta. Desmatamentos em áreas de cerrado não são computados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Dentro disso tudo está a maior biodiversidade da Terra. São centenas de milhares de espécies de plantas e animais – ninguém sabe ao certo quantas –, forçadas a conviver com o predador mais inteligente e perigoso do reino animal, o homem. Segundo a última contagem do IBGE, 23,5 milhões de pessoas vivem na Amazônia. São apenas 13% da população brasileira, mas o suficiente para fazer um estrago de proporções planetárias.

O desflorestamento já consumiu 17% da Amazônia – 700 mil km², área equivalente a Minas Gerais, Rio e Espírito Santo somados. A maior parte foi transformada em madeira, carvão, carne e soja para saciar a demanda de mercados nacionais e internacionais. Mesmo com a dolorosa destruição provocada pelo homem, a Amazônia brasileira ainda é a maior extensão contínua de floresta tropical do mundo. A selva do Congo, segunda colocada, fica muito atrás, tanto em extensão (1,7 milhão de km²) quanto em número de espécies.

Um dos erros que se cometem é tratar a Amazônia como um “tapete verde” homogêneo. O que parece ser uma única floresta sem fim é, na verdade, um grande mosaico de paisagens e ecossistemas altamente diferenciados, compostos de planaltos, depressões, montanhas, terrenos alagados e de terra firme, rios de todos os tamanhos, águas de todas as cores, ácidas e alcalinas, florestas úmidas e secas, savanas, pântanos e manguezais, cada um com seu conjunto próprio de espécies e interações biológicas. “Já andei por muitos lugares na Amazônia e nunca vi duas localidades iguais”, diz a ecóloga Albertina Lima, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). “Cada lugar é diferente, cada um tem suas peculiaridades.”

No período das cheias, quando os rios invadem a floresta, a Amazônia tem mais áreas alagadas que o Pantanal. Tem também o maior conjunto de manguezais do mundo, com 14 mil km², no litoral de Pará e Maranhão. No interior da floresta se abrem grandes manchas de savana, idênticas a uma paisagem africana. A maior montanha do Brasil, o Pico da Neblina, com 2.993 metros, também está lá.

A idéia do tapete verde, além de equivocada, pode colocar em risco a preservação da biodiversidade, sugerindo que uma área é igual a outra, e que um desmatamento em Mato Grosso pode ser compensado com uma unidade de conservação no Amapá. Não pode. “Não faz sentido dizer que vamos preservar 10% ou 20% da Amazônia. Existem várias Amazônias, e todas merecem ser preservadas”, diz o biólogo José Maria Cardoso da Silva, vice-presidente de Ciência da ONG Conservação Internacional (CI).

Muitos cientistas trabalham com o conceito de grandes áreas de endemismo. São regiões separadas pelos grandes rios amazônicos, que funcionam como muralhas aquáticas, restringindo o fluxo de plantas e animais e, com isso, favorecendo a diferenciação geográfica de espécies. Por esse modelo, a Amazônia é um arquipélago de oito gigantescas ilhas fluviais, tão biologicamente distintas quanto os países europeus que cabem dentro delas. Só a área de endemismo Tapajós (entre os Rios Tapajós e Xingu), com 650 mil km², é maior do que toda a região Sul do Brasil (576 mil km²).

Outro modelo – usado pelo WWF e pelo Ibama – divide o bioma em 23 ecorregiões, agrupadas com base em características comuns de ecologia, geologia e clima.

Artigo: O erudito e o popular: a cultura ‘cerratense’

Estadão, 27 de setembro de 2009. Caderno especial sobre cerrado

Victor Leonardi, escritor e historiador

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- Li os relatórios feitos pelos membros da Expedição Cruls, no final do século 19, nos quais são descritos os trabalhos de definição do quadrilátero do futuro Distrito Federal. Cruls era diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro. Ele e sua equipe foram de trem até Araguari, no Triângulo Mineiro, e de lá seguiram a cavalo até as velhas cidades de Meia Ponte, Goiás e Santa Luzia.

especialEspecial: Devastação avança sobre a savana brasileira

Algumas fazendas já existiam em terras que hoje pertencem a Brasília, porém a estrada de ferro só chegaria a Anápolis em 1935. As viagens eram difíceis, mas prazerosas. Cruls, que era belga, gostou muito da vida no Cerrado. O mesmo pode ser dito do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, que atravessou o Cerrado goiano, a cavalo, em 1819. Embora relate asperezas e agruras do caminho, Saint-Hilaire se refere ao Cerrado de forma amável e saudosa em seu livro Viagem à Província de Goiás. Ele havia visitado índios caiapó, nas imediações de Vila Boa, e acabara de passar por Caldas Novas e Caldas Velhas quando escreveu, em pleno sertão: "A vida que eu levo, apesar das fadigas e privações, agrada-me cada vez mais, e é com certo temor que penso no meu regresso à França."

Essa viagem do naturalista francês foi feita na época das vacas magras, quando a mineração já estava em franco declínio. O movimento de tropeiros e viajantes havia caído muito, com o ouro sendo substituído pela pecuária, pela agricultura de subsistência, pela produção de fumo de rolo e de aguardente. A cidade de Meia Ponte, atual Pirenópolis, foi uma das poucas exceções, graças ao comércio. Essa relativa penúria material contrasta com as descrições feitas por viajantes do século anterior. Tropeiros e autoridades civis e militares viajavam de Salvador, capital do Brasil Colônia, para Goiás por uma estrada que ia até Mato Grosso, aberta na primeira metade do século 18. Por ela passou o capitão-general de Goiás, em 1733, D. José de Almeida Vasconcelos, com sua comitiva. Foram recebidos com festa em várias vilas, "e cantaram-lhe óperas italianas até nas mais obscuras bocas do sertão", segundo o historiador Paulo Bertran.

Algo semelhante ocorria em Vila Bela da Santíssima Trindade, capital mato-grossense fundada em 1752, às margens do Rio Guaporé, por D. Rolim de Moura, Conde de Azambuja, primo do rei de Portugal, homem que acabaria se tornando anos mais tarde, no Rio de Janeiro, o 10º vice-rei do Brasil. Rolim de Moura foi governador de Mato Grosso por mais de 10 anos. Segundo o historiador Carlos Francisco Moura, apesar da pobreza em que vivia boa parte da população, algumas tradições culturais urbanas tinham sido mantidas em Vila Bela, como a encenação frequente de peças teatrais de autores europeus. Segundo Moura, em texto intitulado O teatro em Mato Grosso no século 18, algumas comédias espanholas foram encenadas e, até mesmo, a tragédia Zaíra, de Voltaire!

As tradições populares - romarias, mutirões, cavalhadas, moçambiques, congadas, catiras, festas da lua cheia, festas de São Benedito, festas do Divino Espírito Santo - também merecem atenção, pois constituem formas não eruditas e belas da cultura das zonas rurais da região. O Cerrado distante foi palco de vários conflitos interétnicos, que causaram sérios problemas para os povos indígenas, mas foi o local onde nasceu uma boa parte da cultura brasileira em suas diferentes expressões. O isolamento não gerou apenas hábitos despóticos, típicos do coronelismo, mas também hábitos generosos, de hospitalidade, no remoto interior do Brasil.

As culturas regionais e locais passaram por rápidas mudanças nos últimos anos e a modernidade tem hoje em Brasília expressões arrojadas não só na arquitetura como na música, na pintura, no teatro, na fotografia, na poesia e no cinema. Não vejo contradição na convivência "cerratense" entre antigo e moderno, erudito e popular. Espero que as raízes culturais ancestrais sejam preservadas, por isso uma boa política de desenvolvimento sustentável, e de defesa do Cerrado, deve vir acompanhada de forte apoio às tradições populares e à cultura dos habitantes do grande sertão brasileiro.

Ameaça ao Cerrado se volta para o norte


Estadão, 27 de setembro de 2009. Caderno especial sobre cerrado

Com mais de 50% da área destruída ou alterada, Cerrado registra migração do desmate para região preservada

Herton Escobar, enviado especial


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Após esgotar vegetação na região sul do bioma, destruição ruma para o norte. Foto: Dida Sampaio/AE

Primeiro, a boa notícia: o desmatamento no Cerrado está em recessão. Nos últimos sete anos, caiu mais de 60%, segundo um levantamento inédito da Universidade Federal de Goiás (UFG), que o Estado apresenta aqui com exclusividade.

especialEspecial: Devastação avança sobre a savana brasileira

Agora, a dura realidade histórica: mesmo com essa redução, mais da metade do bioma já foi destruída ou alterada pelo homem nos últimos 40 anos, ao ritmo de quatro campos de futebol por minuto, sem que ninguém se preocupasse muito com isso.

Pior: o desmatamento, agora, começa a se embrenhar pelas áreas mais preservadas de grandes remanescentes no norte do bioma. É difícil imaginar como um dos ecossistemas de maior biodiversidade do planeta, dotado de paisagens belíssimas e com quase quatro vezes o tamanho da Espanha, poderia passar desapercebido durante tanto tempo. Mas essa é a história do Cerrado, uma savana esquecida entre duas florestas tropicais.

De um lado, a Amazônia, ícone máximo da ecologia mundial. Do outro, a Mata Atlântica. E no meio delas, o Cerrado. Espalhado por mais de 2 milhões de km², do litoral do Maranhão até o norte do Paraná e oeste de Mato Grosso do Sul, o Cerrado é a pele que recobre quase um quarto do território brasileiro. É o segundo maior bioma do País, com um mosaico de cenários que variam de dunas e campos a chapadas e florestas.

Tem aproximadamente a metade do tamanho da Amazônia, só que com uma ferida muito maior: 835 mil km² de terras desmatadas, suficiente para cobrir uma França e um Reino Unido. A Amazônia perdeu 100 mil km² a menos - uma diferença do tamanho de Santa Catarina. Em muitos aspectos, é o bioma mais ameaçado do Brasil. Mais até do que a Mata Atlântica, que, apesar de estar reduzida a só 7% de sua cobertura original, conta com um movimento ambientalista forte a seu favor.

Já o Cerrado nem é citado na Constituição. É como se não existisse. Apenas 11% de suas terras estão protegidas por unidades de conservação e terras indígenas, comparado a mais de 45% no bioma Amazônia.

A reserva legal - área de uma propriedade que precisa ser obrigatoriamente preservada com vegetação nativa - é de 80% na Amazônia e 20% no Cerrado. Ou seja: na Amazônia preserva-se 80%. No Cerrado, é possível desmatar nessa mesma proporção.

Os efeitos ecológicos e climáticos dessa devastação estão longe de ser compreendidos. Já os efeitos econômicos são bem conhecidos. Quase toda a área desmatada do Cerrado está ocupada por pastagens e plantações. Se por um lado perdemos em biodiversidade e serviços ambientais, por outro, ganhamos em produção de alimentos e desenvolvimento. É dos solos desmatados do Cerrado que brotam 47% dos grãos, 40% da carne bovina e 36% do leite produzidos no País.

No pacote dos alimentos vêm a indústria de máquinas, sementes, fertilizantes, defensivos e outros insumos com alto valor de mercado, que viraram a base da economia do Centro-Oeste. A qualidade de vida, medida pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), é bem mais alta nos municípios em que o Cerrado foi convertido para o agronegócio do que nas áreas em que o bioma ainda está preservado.

Quando se leva em conta as pastagens naturais - campos de capim nativo aproveitados pela pecuária -, a área ocupada do Cerrado sobe para 52%. Nesse sentido, o Cerrado é um bioma dividido, meio a meio, entre os destinos de suas aptidões agrícolas e ecológicas. Resta saber para que lado a balança vai pesar nas próximas décadas, com o crescimento populacional, econômico e energético pressionando cada vez mais seus recursos naturais.

A proposta deste caderno é fazer um retrato dessas duas faces do Cerrado e fomentar o debate sobre como elas podem conviver em harmonia no futuro.