terça-feira, 29 de setembro de 2009

Léo Cavalcanti vence festival na Semana da Canção


AE - Agencia Estado, terça-feira, 29 de setembro de 2009, 11:41


SÃO PAULO - O jovem paulistano Léo Cavalcanti foi o vencedor do festival dentro da Semana da Canção Brasileira, que terminou no início da madrugada de ontem, em São Luiz do Paraitinga. Dos 12 selecionados, 2 eram mulheres e o fato de elas terem ficado com o segundo (a pernambucana Karina Buhr) e o terceiro (a carioca Aricia Mess) lugares é significativo. "Hoje há um grande número de cantoras que compõem, mas as músicas não são boas", disse Chico César, que presidiu o júri formado ainda pela cantora Virginia Rosa e os compositores Galvão, de São Luiz do Paraitinga, e Dante Ozzetti.



Elas, como Léo e os outros três concorrentes que passaram para a etapa final - o mineiro Kristoff Silva, o carioca Luiz Capucho e o paulistano Dani Black - "têm um compromisso com sua própria música". "Isso para mim é canção hoje, não mais só a bela letra, a bela melodia", diz César, tomando como referência ícones como Luiz Gonzaga, Prince, Elomar. Em suma, o critério que norteou os jurados foi selecionar quem tem uma "assinatura própria". Se for para ser igual a tudo o que já está aí, como disse César, não faria sentido ter um festival dentro da Semana da Canção.



Também para o público, o potencial de Léo ficou evidente desde a sua primeira apresentação, confirmada na segunda, com canções - "Ouvidos ao Mistério" e "Acaso" - e interpretações arrebatadoras.



Além do festival, o Coretinho, mais uma vez, foi uma espécie de plataforma de lançamentos de artistas contemporâneos. Além do show inédito de Marcelo Pretto, que cativou adultos e crianças com seus malabarismos vocais, teve Sérgio Molina e Miriam Maria, interpretando inéditas de Itamar Assumpção. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

domingo, 27 de setembro de 2009

A maior floresta do mundo


Reportagem especial do Estadão de 25 de novembro de 2007.


Beleza e destruição cobrem metade do Brasil

Herton Escobar


São Gabriel da Cachoeira, cidade onde cerca de 90% da população é descendente de índios. Foto: Jonne Roriz/AE


MANAUS - A Amazônia tem escala e dimensão singulares e superlativas. É a maior floresta tropical do mundo e maior concentração da biodiversidade do planeta. Sua cobertura verde é uma embalagem viva sob a qual se esconde um universo de animais, plantas, micróbios, genes, climas, águas, índios, beleza e destruição. Cobre metade do território nacional. Não seria exagero dizer que o Brasil é o país da Amazônia, muito mais do que a Amazônia é a floresta do Brasil.

Se somadas as áreas de quase todos os países da Europa (excluindo os da antiga União Soviética), eles caberiam com folga dentro da superfície da Amazônia brasileira. O bioma inteiro tem 6,6 milhões de quilômetros quadrados, espalhados por nove países sul-americanos. O Brasil é dono de quase 65% disso, com mais de 4 milhões de km² de floresta. Só o Estado do Amazonas, com 1,6 milhão de km², tem quase cinco vezes a área da Alemanha ou três vezes o território da França, e é maior do que qualquer um dos outros países amazônicos – Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana e Suriname, fora a Guiana Francesa, que é uma possessão.

Referências à Amazônia brasileira aparecem de duas maneiras distintas. A primeira é o bioma Amazônia, uma definição ecológica que considera apenas as áreas de formação florestal e seus ecossistemas associados; tem 4,2 milhões de km², ou 50% do território nacional. A outra, chamada Amazônia Legal, é uma região política, que abrange os sete Estados do Norte (Amazonas, Pará, Roraima, Amapá, Acre, Rondônia e Tocantins), mais Mato Grosso e metade do Maranhão. Tem pouco mais de 5 milhões de km² e foi definida originalmente como área de jurisdição da antiga Sudam, a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia, extinta em 2001 e recriada neste ano. Além de áreas de floresta, inclui cerca de 730 mil km² de cerrado e outras formações naturais não florestais. Os 100 mil km² que sobram são as superfícies ocupadas pelos rios – um universo aquático quase do tamanho de Pernambuco. Normalmente, faz-se referência à Amazônia Legal quando se trata de dados econômicos; as estatísticas sobre desmatamento – ou desflorestamento – dizem respeito apenas às áreas de floresta. Desmatamentos em áreas de cerrado não são computados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Dentro disso tudo está a maior biodiversidade da Terra. São centenas de milhares de espécies de plantas e animais – ninguém sabe ao certo quantas –, forçadas a conviver com o predador mais inteligente e perigoso do reino animal, o homem. Segundo a última contagem do IBGE, 23,5 milhões de pessoas vivem na Amazônia. São apenas 13% da população brasileira, mas o suficiente para fazer um estrago de proporções planetárias.

O desflorestamento já consumiu 17% da Amazônia – 700 mil km², área equivalente a Minas Gerais, Rio e Espírito Santo somados. A maior parte foi transformada em madeira, carvão, carne e soja para saciar a demanda de mercados nacionais e internacionais. Mesmo com a dolorosa destruição provocada pelo homem, a Amazônia brasileira ainda é a maior extensão contínua de floresta tropical do mundo. A selva do Congo, segunda colocada, fica muito atrás, tanto em extensão (1,7 milhão de km²) quanto em número de espécies.

Um dos erros que se cometem é tratar a Amazônia como um “tapete verde” homogêneo. O que parece ser uma única floresta sem fim é, na verdade, um grande mosaico de paisagens e ecossistemas altamente diferenciados, compostos de planaltos, depressões, montanhas, terrenos alagados e de terra firme, rios de todos os tamanhos, águas de todas as cores, ácidas e alcalinas, florestas úmidas e secas, savanas, pântanos e manguezais, cada um com seu conjunto próprio de espécies e interações biológicas. “Já andei por muitos lugares na Amazônia e nunca vi duas localidades iguais”, diz a ecóloga Albertina Lima, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). “Cada lugar é diferente, cada um tem suas peculiaridades.”

No período das cheias, quando os rios invadem a floresta, a Amazônia tem mais áreas alagadas que o Pantanal. Tem também o maior conjunto de manguezais do mundo, com 14 mil km², no litoral de Pará e Maranhão. No interior da floresta se abrem grandes manchas de savana, idênticas a uma paisagem africana. A maior montanha do Brasil, o Pico da Neblina, com 2.993 metros, também está lá.

A idéia do tapete verde, além de equivocada, pode colocar em risco a preservação da biodiversidade, sugerindo que uma área é igual a outra, e que um desmatamento em Mato Grosso pode ser compensado com uma unidade de conservação no Amapá. Não pode. “Não faz sentido dizer que vamos preservar 10% ou 20% da Amazônia. Existem várias Amazônias, e todas merecem ser preservadas”, diz o biólogo José Maria Cardoso da Silva, vice-presidente de Ciência da ONG Conservação Internacional (CI).

Muitos cientistas trabalham com o conceito de grandes áreas de endemismo. São regiões separadas pelos grandes rios amazônicos, que funcionam como muralhas aquáticas, restringindo o fluxo de plantas e animais e, com isso, favorecendo a diferenciação geográfica de espécies. Por esse modelo, a Amazônia é um arquipélago de oito gigantescas ilhas fluviais, tão biologicamente distintas quanto os países europeus que cabem dentro delas. Só a área de endemismo Tapajós (entre os Rios Tapajós e Xingu), com 650 mil km², é maior do que toda a região Sul do Brasil (576 mil km²).

Outro modelo – usado pelo WWF e pelo Ibama – divide o bioma em 23 ecorregiões, agrupadas com base em características comuns de ecologia, geologia e clima.

Artigo: O erudito e o popular: a cultura ‘cerratense’

Estadão, 27 de setembro de 2009. Caderno especial sobre cerrado

Victor Leonardi, escritor e historiador

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- Li os relatórios feitos pelos membros da Expedição Cruls, no final do século 19, nos quais são descritos os trabalhos de definição do quadrilátero do futuro Distrito Federal. Cruls era diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro. Ele e sua equipe foram de trem até Araguari, no Triângulo Mineiro, e de lá seguiram a cavalo até as velhas cidades de Meia Ponte, Goiás e Santa Luzia.

especialEspecial: Devastação avança sobre a savana brasileira

Algumas fazendas já existiam em terras que hoje pertencem a Brasília, porém a estrada de ferro só chegaria a Anápolis em 1935. As viagens eram difíceis, mas prazerosas. Cruls, que era belga, gostou muito da vida no Cerrado. O mesmo pode ser dito do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, que atravessou o Cerrado goiano, a cavalo, em 1819. Embora relate asperezas e agruras do caminho, Saint-Hilaire se refere ao Cerrado de forma amável e saudosa em seu livro Viagem à Província de Goiás. Ele havia visitado índios caiapó, nas imediações de Vila Boa, e acabara de passar por Caldas Novas e Caldas Velhas quando escreveu, em pleno sertão: "A vida que eu levo, apesar das fadigas e privações, agrada-me cada vez mais, e é com certo temor que penso no meu regresso à França."

Essa viagem do naturalista francês foi feita na época das vacas magras, quando a mineração já estava em franco declínio. O movimento de tropeiros e viajantes havia caído muito, com o ouro sendo substituído pela pecuária, pela agricultura de subsistência, pela produção de fumo de rolo e de aguardente. A cidade de Meia Ponte, atual Pirenópolis, foi uma das poucas exceções, graças ao comércio. Essa relativa penúria material contrasta com as descrições feitas por viajantes do século anterior. Tropeiros e autoridades civis e militares viajavam de Salvador, capital do Brasil Colônia, para Goiás por uma estrada que ia até Mato Grosso, aberta na primeira metade do século 18. Por ela passou o capitão-general de Goiás, em 1733, D. José de Almeida Vasconcelos, com sua comitiva. Foram recebidos com festa em várias vilas, "e cantaram-lhe óperas italianas até nas mais obscuras bocas do sertão", segundo o historiador Paulo Bertran.

Algo semelhante ocorria em Vila Bela da Santíssima Trindade, capital mato-grossense fundada em 1752, às margens do Rio Guaporé, por D. Rolim de Moura, Conde de Azambuja, primo do rei de Portugal, homem que acabaria se tornando anos mais tarde, no Rio de Janeiro, o 10º vice-rei do Brasil. Rolim de Moura foi governador de Mato Grosso por mais de 10 anos. Segundo o historiador Carlos Francisco Moura, apesar da pobreza em que vivia boa parte da população, algumas tradições culturais urbanas tinham sido mantidas em Vila Bela, como a encenação frequente de peças teatrais de autores europeus. Segundo Moura, em texto intitulado O teatro em Mato Grosso no século 18, algumas comédias espanholas foram encenadas e, até mesmo, a tragédia Zaíra, de Voltaire!

As tradições populares - romarias, mutirões, cavalhadas, moçambiques, congadas, catiras, festas da lua cheia, festas de São Benedito, festas do Divino Espírito Santo - também merecem atenção, pois constituem formas não eruditas e belas da cultura das zonas rurais da região. O Cerrado distante foi palco de vários conflitos interétnicos, que causaram sérios problemas para os povos indígenas, mas foi o local onde nasceu uma boa parte da cultura brasileira em suas diferentes expressões. O isolamento não gerou apenas hábitos despóticos, típicos do coronelismo, mas também hábitos generosos, de hospitalidade, no remoto interior do Brasil.

As culturas regionais e locais passaram por rápidas mudanças nos últimos anos e a modernidade tem hoje em Brasília expressões arrojadas não só na arquitetura como na música, na pintura, no teatro, na fotografia, na poesia e no cinema. Não vejo contradição na convivência "cerratense" entre antigo e moderno, erudito e popular. Espero que as raízes culturais ancestrais sejam preservadas, por isso uma boa política de desenvolvimento sustentável, e de defesa do Cerrado, deve vir acompanhada de forte apoio às tradições populares e à cultura dos habitantes do grande sertão brasileiro.

Ameaça ao Cerrado se volta para o norte


Estadão, 27 de setembro de 2009. Caderno especial sobre cerrado

Com mais de 50% da área destruída ou alterada, Cerrado registra migração do desmate para região preservada

Herton Escobar, enviado especial


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Após esgotar vegetação na região sul do bioma, destruição ruma para o norte. Foto: Dida Sampaio/AE

Primeiro, a boa notícia: o desmatamento no Cerrado está em recessão. Nos últimos sete anos, caiu mais de 60%, segundo um levantamento inédito da Universidade Federal de Goiás (UFG), que o Estado apresenta aqui com exclusividade.

especialEspecial: Devastação avança sobre a savana brasileira

Agora, a dura realidade histórica: mesmo com essa redução, mais da metade do bioma já foi destruída ou alterada pelo homem nos últimos 40 anos, ao ritmo de quatro campos de futebol por minuto, sem que ninguém se preocupasse muito com isso.

Pior: o desmatamento, agora, começa a se embrenhar pelas áreas mais preservadas de grandes remanescentes no norte do bioma. É difícil imaginar como um dos ecossistemas de maior biodiversidade do planeta, dotado de paisagens belíssimas e com quase quatro vezes o tamanho da Espanha, poderia passar desapercebido durante tanto tempo. Mas essa é a história do Cerrado, uma savana esquecida entre duas florestas tropicais.

De um lado, a Amazônia, ícone máximo da ecologia mundial. Do outro, a Mata Atlântica. E no meio delas, o Cerrado. Espalhado por mais de 2 milhões de km², do litoral do Maranhão até o norte do Paraná e oeste de Mato Grosso do Sul, o Cerrado é a pele que recobre quase um quarto do território brasileiro. É o segundo maior bioma do País, com um mosaico de cenários que variam de dunas e campos a chapadas e florestas.

Tem aproximadamente a metade do tamanho da Amazônia, só que com uma ferida muito maior: 835 mil km² de terras desmatadas, suficiente para cobrir uma França e um Reino Unido. A Amazônia perdeu 100 mil km² a menos - uma diferença do tamanho de Santa Catarina. Em muitos aspectos, é o bioma mais ameaçado do Brasil. Mais até do que a Mata Atlântica, que, apesar de estar reduzida a só 7% de sua cobertura original, conta com um movimento ambientalista forte a seu favor.

Já o Cerrado nem é citado na Constituição. É como se não existisse. Apenas 11% de suas terras estão protegidas por unidades de conservação e terras indígenas, comparado a mais de 45% no bioma Amazônia.

A reserva legal - área de uma propriedade que precisa ser obrigatoriamente preservada com vegetação nativa - é de 80% na Amazônia e 20% no Cerrado. Ou seja: na Amazônia preserva-se 80%. No Cerrado, é possível desmatar nessa mesma proporção.

Os efeitos ecológicos e climáticos dessa devastação estão longe de ser compreendidos. Já os efeitos econômicos são bem conhecidos. Quase toda a área desmatada do Cerrado está ocupada por pastagens e plantações. Se por um lado perdemos em biodiversidade e serviços ambientais, por outro, ganhamos em produção de alimentos e desenvolvimento. É dos solos desmatados do Cerrado que brotam 47% dos grãos, 40% da carne bovina e 36% do leite produzidos no País.

No pacote dos alimentos vêm a indústria de máquinas, sementes, fertilizantes, defensivos e outros insumos com alto valor de mercado, que viraram a base da economia do Centro-Oeste. A qualidade de vida, medida pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), é bem mais alta nos municípios em que o Cerrado foi convertido para o agronegócio do que nas áreas em que o bioma ainda está preservado.

Quando se leva em conta as pastagens naturais - campos de capim nativo aproveitados pela pecuária -, a área ocupada do Cerrado sobe para 52%. Nesse sentido, o Cerrado é um bioma dividido, meio a meio, entre os destinos de suas aptidões agrícolas e ecológicas. Resta saber para que lado a balança vai pesar nas próximas décadas, com o crescimento populacional, econômico e energético pressionando cada vez mais seus recursos naturais.

A proposta deste caderno é fazer um retrato dessas duas faces do Cerrado e fomentar o debate sobre como elas podem conviver em harmonia no futuro.