segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Tim Burton estica curta e o que vale é a tecnologia

Fonte: Estadão, 12 de outubro de 2009.



9 - A Salvação virou longa metragem por sugestão do famoso diretor de filmes sombrios e serve como exemplo de bom uso das técnicas de ponta na animação

LUIZ CARLOS MERTEN

Há apenas quatro anos, Shane Acker recebeu o prêmio de melhor curta da Academia de Estudantes de Cinema por um filme chamado 9. Até então, a experiência profissional de Acker se resumia basicamente ao trabalho como animador de pós-produção em O Senhor dos Aneis - O Retorno do Rei. Tim Burton viu o curta do jovem diretor e, seduzido por seu visual e tema - ambos definidos como "esquisitos" -, propôs a Acker que o expandisse num longa, que ele produziria. O resultado é 9 - A Salvação, que estreia hoje.



Veja trailer de 9 - A Salvação




Como em O Estranho Mundo de Jack, o espectador pode ser induzido a achar que se trata de uma animação de Tim Burton. O nome dele aparece sempre com mais relevo do que os de seus diretores - Henry Selick em Jack, Acker aqui. Mas o diretor de A Salvação garante que Burton não interferiu no processo criativo do longa - e, quando interferia, era para exortar Acker a retomar o fio de seu curta, no caso de ele estar indeciso quanto aos rumos de Salvação.

É uma animação radicalmente diferente das de John Lasseter, na Pixar - e Up, Altas Aventuras ainda está em cartaz, com expressivo êxito de público e crítica, caso você queira conferir. É curioso que se fale em Lasseter, a propósito de Up, porque ele também é produtor e supervisor, mas o processo criativo foi inteiramente entregue ao diretor Pete Docter, tão autônomo quanto Shane Acker. 9 - A Salvação está mais próximo do espírito de Wall-E: um Wall-E sombrio, dark, gótico, com Burton gosta.

Wall-E conta a história de um robozinho que vai ficando obsoleto num mundo pós-apocalíptico em que a tecnologia avança rapidamente. 9, o numeral que faz as vezes de nome, é mais marionete, um boneco não totalmente acabado - como Edward Mãos de Tesoura - que enfrenta os perigos de um mundo onde os últimos de sua espécie estão sendo caçados por uma besta também pós-apocalíptica. Há essa máquina, estranhíssima, que suga as almas dos que são como 9. O pequenino herói, face ao gigantismo da máquina, lembra Tom Cruise diante dos ETs de Guerra dos Mundos, de Steven Spielberg - e até os terráqueos, no interior dos alienígenas, devem ter sido inspirações para Shane Acker.

O longa provocou sensação nos EUA, onde a crítica deve ter problemas para perceber que Ratatouille e Up são grandes, imensos filmes. O inusitado do visual de 9 - A Salvação criam a fantasia de que o filme de Acker é mais "ousado" ou "criativo". Na verdade, toda a pesquisa de "conteúdo" de 9 parece de segunda mão. Seu forte é a tecnologia, mas ele poderá causar estranhamento aos que se encantam com o universo multicolorido da Pixar. Acker demorou quatro anos e meio para fazer, artesanalmente, seu curta. Com os recursos franqueados por Tim Burton, esse prazo se reduziu à metade para outro filme de duração quatro vezes maior.

Os bonecos de A Salvação foram modelados em 3-D, ganharam texturas no photoshop, as composições foram definidas nos efeitos pós e um avançado programa - Première - permitiu a edição, com tecnologia computadorizada de ponta. Tudo isso é certamente complexo e 9 aponta novos rumos para a animação. É o que torna o programa particularmente atrativo - para adultos, mais até do que para crianças. Você pode comparar com outras animações, de outras escolas, já em exibição nos cinemas. Up, da Pixar, e também Tá Chovendo Hambúrguer, da Sony, ambas em 3D. Nesta sexta também entra O Golfinho, a mais caracteristicamente "infantil" de todas essas animações. Essa diversidade é que faz a riqueza dessa mídia tão particular que muitos crítiocos e profissionais chegam a definir a animação como "oitava arte".

Serviço
9 - A Salvação
(9, EUA/ 2009, 79 min.) - Animação. Direção de Shane Acker. 10 anos. Cotação: Regular

O samba antes e depois de Rildo

Renomado produtor de samba

Fonte: Estadão, 12 de outubro de 2009.

O veterano produtor, que impulsionou as carreiras de sambistas importantes, vem aí com novo álbum



Lucas Nobile


A calmaria mora no não dito. O gaitista, produtor, arranjador e maestro Rildo Hora precisou de tempo para entender isso e fazer um "pacto com a generosidade", como ele mesmo define. Do alto de seus 1m90, o intempestivo e magro Rildo, que ganhou da amiga Beth Carvalho o apelido de "Comprido Hora", costumava bater de frente com artistas e gravadoras para impor suas ideias. E os arroubos de imperatividade não se restringiam apenas à profissão.

Nascido em Caruaru de uma família predominantemente branca e reacionária, recém-saído da adolescência, Rildo deixava crescer a vasta cabeleira "pixaim", que havia herdado do pai, só para provocar a ira das tias e avós. "Em 1968 eu me considerava um comunista. Hoje sou um órfão do Kremlim. Assim como o presidente Lula, aprendi a conviver com os contrários", diz Rildo, lulista convicto, que justifica seu principal hobby, a política, assistindo à TV Senado nas horas vagas.

Hoje, aos 70 anos - e mais de 50 de carreira -, Rildo se tornou uma espécie de Rei Midas do Samba e coleciona em sua cobertura no Corte do Cantagalo, no Rio de Janeiro, cerca de 150 discos de ouro e platina de diversos artistas com quem trabalhou, e 4 Grammys Latinos conquistados ao lado de Zeca Pagodinho (2001/02/ 03/ 06).

Consagrado como produtor e arranjador, ele ainda respira novos projetos que caminham na contramão dos enlatados do mercado. Sem abandonar os grandes nomes com quem trabalha no momento, como Zeca e Fundo de Quintal, Rildo se atualiza, dedicando seu tempo à produção de jovens artistas da cena independente. "Acredito na força de baixo para cima na cultura e estou muito sensibilizado em trabalhar com sangue novo. O segmento independente é muito interessante, lá não se fala a palavra "vender". É ele que vai dar a futura cara da música brasileira, com liberdade de expressão", comenta o produtor.

Mesmo com a estrada de uma longa carreira pavimentada pela produção e por arranjos de gravações antológicas, Rildo ainda faz questão de refrescar a memória do público, revelando mais duas de suas facetas: a de gaitista e a de compositor. A primeira ainda resiste com participações em discos e frequentes shows-solo que ele faz pelo Brasil. Foi com a gaita que Rildo conquistou os contemporâneos de bossa nova com registros singulares, como Batida Diferente, de Durval Ferreira, no seu disco de estreia, Samba Made in Brazil - Rildo Hora e o Clube dos 7, e impressionou os estrangeiros, como os jornais que o classificaram de "virtuoso da gaita" e o coreógrafo Mikhail Baryshnikov, em viagem à antiga União Soviética, em 1965.

E a segunda faceta está mais viva do que nunca, já que Rildo acaba de entrar em estúdio para gravar um disco com sua filha, a cantora Patrícia Hora, com lançamento previsto para o início de 2010. No repertório, composições inéditas antigas e recentes de Rildo com parceiros como Nelson Sargento, Luiz Carlos da Vila, Humberto Teixeira, Nei Lopes e Zélia Duncan, e a regravação de Anda, Sai Dessa Cama, parceria com Martinho da Vila.

Em relação à carreira de arranjador e produtor, Rildo não poderia estar mais contente, já que depois de um hiato de 25 anos ele voltará a trabalhar com Beth Carvalho. O disco, que começa a ser gravado apenas no próximo ano, terá no repertório sambas inéditos resgatados no imenso baú da "Madrinha do Samba".

Ana Cañas lança álbum "Hein"

Fonte: TV Estadão de 12 de outubro de 2009.

Pegada mais rock. Produção de Liminha.