Para Edna, País tem avançado nessa área nos últimos anos, mas potencial brasileiro ainda está subutilizado
Marianna Aragão
Entrevista
Edna dos Santos-Duisenberg: Chefe do programa para a economia criativa do Unctad
A carioca Edna dos Santos-Duisenberg tem viajado o mundo para desenvolver e, em alguns casos, apresentar, o conceito de economia criativa. Em 2005, a economista, há mais de 20 anos na Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, foi designada a chefe do recém-criado programa para a economia criativa da Unctad, braço da ONU para comércio e desenvolvimento. O objetivo do programa é incluir o tema na agenda econômica dos países, especialmente os em desenvolvimento, como o Brasil. "Nosso principal mandato é assistir governos na formulação de políticas públicas para reforçar o setor, que gera muito emprego, renda e, ao mesmo tempo, divisas de exportação." No Brasil, o ambiente para desenvolvimento das atividades criativas melhorou nos últimos anos, acredita ela. Um dos componentes dessa mudança é a organização de clusters (concentração geográfica de empresas de um determinado setor) e iniciativas na área de moda e design, principalmente. O financiamento do BNDES a algumas atividades culturais também tem avançado. Apesar disso, Edna estima que o potencial do setor está subutilizado no País. "O Brasil tem abundância de talentos e de criatividade. Podemos fazer muito mais do que estamos fazendo." A seguir, os principais trechos da entrevista:
Como tem sido seu trabalho nos últimos anos?
Nosso principal mandato é assistir governos na formulação de políticas públicas para reforçar o setor, que é um setor extremamente dinâmico do comércio internacional, que gera muito emprego, renda, e, ao mesmo tempo, divisas de exportação. Até então, a discussão sobre as indústrias culturais se dava sob o ponto de vista cultural. Nosso trabalho é tentar olhar seu impacto na economia.
O que foi feito no Brasil?
A discussão evoluiu. Estamos sentindo interesse dos Estados, na formulação de políticas estaduais no setor. Apesar de nossos principais interlocutores serem o governo, na economia criativa é muito importante essa sinergia entre o setor - os criadores, os artistas, os empreendedores, as ONGs.
Quais são os setores mais promissores aqui?
Em São Paulo tem muita coisa interessante em design, moda e serviços, que incluem arquitetura e publicidade. No Nordeste se vê muita coisa relacionada a artesanato. No Rio, há o carnaval, que tem impacto social muito importante em geração de renda, de emprego e inclusão social.
Houve avanços desde 2004? Como tem evoluído esse conceito no Brasil?
Muito. O debate evoluiu não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Em São Paulo, há grupos de reflexão sobre o tema, seminários, estudos. Existe um olhar muito mais atento do governo sobre o setor. Também tem se pensando em financiamento. O BNDES criou um departamento que já olha as questões voltadas para o setor, com foco no audiovisual. Mas cabe um avanço maior, como está havendo em outros países. Principalmente porque no Brasil há abundância de talentos e criatividade. O setor ainda está subutilizado.
O Brasil nem aparece entre os mercados emergentes mais importantes para a economia criativa...
O Brasil tem capacidade de criar, mas está faltando ainda esse clima que faça com que mais ideias se transformem em produtos e esses produtos tenham acesso ao mercado, seja nacional ou internacional.
Já a China é líder. O que está acontecendo lá?
A China tem duas coisas interessantes. Como o Brasil, tem um mercado interno muito importante. O crescimento de 9% ao ano nos últimos anos criou uma classe média capaz de consumir cada vez mais esses produtos. No Brasil, as coisas vão acontecendo de forma mais lenta.
A exportação de serviços vem crescendo no Brasil?
Os produtos da economia criativa estão entre os mais dinâmicos do comércio internacional. Principalmente a partir do ano 2000, ela se destacou em relação a outros setores tradicionais da economia.
Por quê?
São três fatores de fundo básicos. A globalização é uma realidade que mudou nossos hábitos de consumo. Outro dado importante é a conectividade, que faz com que hoje em dia se consuma cada vez mais serviços e produtos criativos. Hoje você tem um público de jovens que, pelo telefone móvel, consomem música, conteúdo digital, cinema. O perfil da demanda mudou muito, mudando também a maneira com que os produtos são criados, reproduzidos e comercializados. Por outro lado, existe um número maior de pessoas que se aposentam e a esperança de vida da população aumentou. Nesse período que estão aposentadas, começam a se interessar mais por cultura e lazer, então começam também a consumir mais produtos criativos.
sábado, 2 de janeiro de 2010
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