sábado, 2 de janeiro de 2010

Estadão - ''O Brasil pode fazer muito mais do que faz hoje''

Para Edna, País tem avançado nessa área nos últimos anos, mas potencial brasileiro ainda está subutilizado

Marianna Aragão

Entrevista
Edna dos Santos-Duisenberg: Chefe do programa para a economia criativa do Unctad


A carioca Edna dos Santos-Duisenberg tem viajado o mundo para desenvolver e, em alguns casos, apresentar, o conceito de economia criativa. Em 2005, a economista, há mais de 20 anos na Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, foi designada a chefe do recém-criado programa para a economia criativa da Unctad, braço da ONU para comércio e desenvolvimento. O objetivo do programa é incluir o tema na agenda econômica dos países, especialmente os em desenvolvimento, como o Brasil. "Nosso principal mandato é assistir governos na formulação de políticas públicas para reforçar o setor, que gera muito emprego, renda e, ao mesmo tempo, divisas de exportação." No Brasil, o ambiente para desenvolvimento das atividades criativas melhorou nos últimos anos, acredita ela. Um dos componentes dessa mudança é a organização de clusters (concentração geográfica de empresas de um determinado setor) e iniciativas na área de moda e design, principalmente. O financiamento do BNDES a algumas atividades culturais também tem avançado. Apesar disso, Edna estima que o potencial do setor está subutilizado no País. "O Brasil tem abundância de talentos e de criatividade. Podemos fazer muito mais do que estamos fazendo." A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como tem sido seu trabalho nos últimos anos?

Nosso principal mandato é assistir governos na formulação de políticas públicas para reforçar o setor, que é um setor extremamente dinâmico do comércio internacional, que gera muito emprego, renda, e, ao mesmo tempo, divisas de exportação. Até então, a discussão sobre as indústrias culturais se dava sob o ponto de vista cultural. Nosso trabalho é tentar olhar seu impacto na economia.

O que foi feito no Brasil?

A discussão evoluiu. Estamos sentindo interesse dos Estados, na formulação de políticas estaduais no setor. Apesar de nossos principais interlocutores serem o governo, na economia criativa é muito importante essa sinergia entre o setor - os criadores, os artistas, os empreendedores, as ONGs.

Quais são os setores mais promissores aqui?

Em São Paulo tem muita coisa interessante em design, moda e serviços, que incluem arquitetura e publicidade. No Nordeste se vê muita coisa relacionada a artesanato. No Rio, há o carnaval, que tem impacto social muito importante em geração de renda, de emprego e inclusão social.

Houve avanços desde 2004? Como tem evoluído esse conceito no Brasil?

Muito. O debate evoluiu não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Em São Paulo, há grupos de reflexão sobre o tema, seminários, estudos. Existe um olhar muito mais atento do governo sobre o setor. Também tem se pensando em financiamento. O BNDES criou um departamento que já olha as questões voltadas para o setor, com foco no audiovisual. Mas cabe um avanço maior, como está havendo em outros países. Principalmente porque no Brasil há abundância de talentos e criatividade. O setor ainda está subutilizado.

O Brasil nem aparece entre os mercados emergentes mais importantes para a economia criativa...


O Brasil tem capacidade de criar, mas está faltando ainda esse clima que faça com que mais ideias se transformem em produtos e esses produtos tenham acesso ao mercado, seja nacional ou internacional.

Já a China é líder. O que está acontecendo lá?

A China tem duas coisas interessantes. Como o Brasil, tem um mercado interno muito importante. O crescimento de 9% ao ano nos últimos anos criou uma classe média capaz de consumir cada vez mais esses produtos. No Brasil, as coisas vão acontecendo de forma mais lenta.

A exportação de serviços vem crescendo no Brasil?


Os produtos da economia criativa estão entre os mais dinâmicos do comércio internacional. Principalmente a partir do ano 2000, ela se destacou em relação a outros setores tradicionais da economia.

Por quê?

São três fatores de fundo básicos. A globalização é uma realidade que mudou nossos hábitos de consumo. Outro dado importante é a conectividade, que faz com que hoje em dia se consuma cada vez mais serviços e produtos criativos. Hoje você tem um público de jovens que, pelo telefone móvel, consomem música, conteúdo digital, cinema. O perfil da demanda mudou muito, mudando também a maneira com que os produtos são criados, reproduzidos e comercializados. Por outro lado, existe um número maior de pessoas que se aposentam e a esperança de vida da população aumentou. Nesse período que estão aposentadas, começam a se interessar mais por cultura e lazer, então começam também a consumir mais produtos criativos.

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